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 Um livro, uma vida.

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rodrigo.rudi
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Mensagens : 7
Data de inscrição : 17/06/2008
Localização : Rio de Janeiro

MensagemAssunto: Um livro, uma vida.   Ter Jun 17, 2008 11:06 pm

O Soldadinho de chumbo" foi o primeiro livro que eu ganhei. Não lembro a idade, foi presente da minha formatura de C.A (classe de alfabetização). Eu queria era um carrinho, fiquei bravo demais por ter recebido aquele livro. O que fazer com um livro, meu Deus? Era a pergunta que quase todas as crianças fazem! Recordo-me que aquele soldadinho estampado na capa do livro com uma única perna e com um sorriso no rosto me desconsertou. Qual é a alegria quando algo nos falta? Comecei a ler o livro e me encantei com tamanha beleza. Recordo-me de umas gravuras que haviam no livro, até mesmo o tipo de letra e seu formato. Mas nada me marcou tanto como a imagem do pequeno soldadinho - ele me cativou em sua deficiência. A alegria e o encanto que ele havia me proporcionado em suas aventuras fez com que eu esquecesse sua deficiência. A vida é assim - deixamos que a pequena diferença do outro se torne arrogância em nós. Têm gente que vive a base de belezas, e que morrem da solidão pelo ego. O soldadinho era desfigurado por fora, mas era raro em beleza interior. Com seu jeito soube me conquistar e ganhar o meu coração. Às vezes pessoas perfeitas fisícamente não celebram uma vida a dois, porque buscam a perfeição onde ela não existe.




— Olhe! Um soldadinho! Será que alguém jogou fora porque ele está quebrado?
— É, está um pouco amassado. Deve ter vindo com a enxurrada.
— Não, ele está só um pouco sujo.
— O que nós vamos fazer com um soldadinho só? Precisaríamos pelo menos meia dúzia, para organizar uma batalha.
— Sabe de uma coisa? — Disse o primeiro garoto. —Vamos colocá-lo num barco e mandá-lo dar a volta ao mundo.


O soldadinho trazia a marca da deficiência, da exclusão de um grupo, da saudade de uma bailarina que ao ver pela primeira vez, aprendera a amá-la (não vou contar o final porque aprendi que aquela história nunca terminou, mas continua em mim, ainda hoje com meus 25 anos de idade). Aquele pequeno livro com um personagem até então desconhecido para um menino que acabara de se alfabetizar, tornaria um amigo e um amor secreto. Não ganhei apenas o livro, mas lições que me fizeram mais homem, mais humano. Não aprendi a juntas palavras e interpretar frases, com aquele livro, eu aprendi a viver. Na vida a beleza é capaz de abrir portas, mas não é garantia de conquista de corações. O amor verdadeiro é gerido na precariedade. Quanta coisa o soldadinho teve que enfrentar, mas soube superar os limites e, pôde saltar o muro da impossibilidade - não com a única perna que possuía, mas com o coração! É que têm gente que acha que beleza é salva vidas, mas não, o que salva é o que têm se traz dentro do peito. Reconheço-me com muitos defeitos, mas o meu desejo de amar é maior. É por isso que tenho prazer em dizer que a literatura é a minha vida - é uma forma desconsertante de revelar episódios de uma ficção e realidades repleta de ensinamentos que geram mudanças em nós. Literatura é uma ferramente que pode calar o barulho de tantas guerras! A literatura não joga com canhões, mas ela fisga o coração e indica caminhos. É bem pouco o que sei dela, mas nesse pouco é que me refaço na busca de descobrir quem eu sou - com meus limites e com minhas tantas pernas ausentes. Tenho plena certeza que se eu tivesse recebido um carrinho, não seria o mesmo Rodrigo e nem traria dentro do peito o que de raro eu aprendi. Dê brinquedos, têm lugar para brinquedos também... mas presenteie com bons livros. Um brinquedo pode proporcionar horas de prazer, mas uma boa estória pode proporcionar uma vida inteira de aprendizado. Na ausência da perna do soldadinho de chumbo eu me revi deficiente de tantas coisas, uma delas: a falta de amor. Porém no sorriso que explodia de beleza em seu rosto, aprendi que amar é uma questão de escolha. E eu decidi pelo amor.

Além das cinzas, estará o coração.

Profº. Rodrigo Rudi.
Graduado em Letras pela Universidade de Barra Mansa / RJ.
Pós graduando em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira - Universidade Severino Sombra - Vassouras/RJ.
Finalista e ganhador no concurso da UNESCO/ABL 2007.
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