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 A garupa ...

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rodrigo.rudi
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Mensagens : 7
Data de inscrição : 17/06/2008
Localização : Rio de Janeiro

MensagemAssunto: A garupa ...   Ter Jun 17, 2008 10:57 pm

A maior religião é a VIDA. Promovê-la é uma ação contínua do Criador. Gera-se a vida na arte, na literatura e no cotidiano de Adélia Prado:



"No cemitério é bom passear. A vida perde a estridência, o mau gosto ampara-nos nas dilacerações."


Não se andam nele, mas tropeçam no exagero de anular a vida em brilhos com data de validade - luz que não permanece, nem encalça os pés. Forma desregrada de matar a arte humana pela omissão. Gosto de pensar nas coisas esquecidas, objetos que não se ocupam em representar alguma utilidade, por isso vivem, são o que são sem ter que representar nada para o outro. O telefone quebrado é o que ele é, nada mais. Recordo-me das inúmeras vezes que eu fazia cara feia para ir à escola. Eu não gostava de estudar. Era só meu pai retirar a bicicleta vermelha do almoxarifado de casa e eu estremecia: era quase a hora de ir para a escola. A mãe chamava para o banho - forma silenciosa de lavar o corpo das poeiras que o quintal de casa abrigavam, poeiras e sonhos. As poeiras iam, os sonhos ficavam em mim. Eu não gostava era de pentear os cabelos, doía. Ficava todo engomadinho e tinha que comer logo se não perderia a hora da aula. Lá fora, a garupa da bicicleta forrada com papelão parecia rir de mim - talvez seja por isso que nunca gostei de bicicletas vermelhas... O percurso da ida até a escola era longo, mas curto demais para quem nunca queria chegar. Aos prantos eu descia e entrava na filinha - mãozinhas no ombro do amiguinho, todos sorrindo e eu ali, olhando para trás e dando tudo para voltar na garupa vermelha. Eu reconhecia o seu valor no momento em que não estava mais nela. Mais tarde, recolher as lancheiras, devolver o crachá com o nome e uma figura do Tio Patinhas sorrindo idiotamente para mim. Não importava, eram sinais que anunciavam que a hora de ir embora se aproximava - outra filinha idiota (não é só adultos que enfrentam fila, mas gurizinhos também.). No portão eu avistava a bicicleta vermelha e logo o meu pai, aí meu coração descansava de alívio. Na ida aquela bicicleta representava uma prisão diária, dura e com hora marcada; mas na volta, quando os meus olhinhos a identificava no meio de tanta gente, era para o meu coração um alívio, lugar de descanso e de amor. Ela indicava que meu pai estava por perto... Na vida também é assim - existem caminhos que são tortuosos para trilhar, momentos de dores difíceis de serem enfrentados. É preciso subir na garupa e deixar que Deus guie... Só depois uma explosão de significados acontecem. É na volta, no descanso, na serenidade que se compreende que a vida trás em nós as marcas profundas dos seus sabores... Um dia a bicicleta vermelha deixou de ser a metáfora do sofrimento e se configurou em amor. Hoje eu sei o motivo de me sentir tão amparado naquela garupa... hoje eu sei que ela não era uma bicicleta qualquer, ela era a bicicleta do meu pai. E o meu pai era uma das formas mais belas que um dia Deus resolveu criar para me amar! Lá não havia uma bicicleta esquecida. Havia um pai que me esperava. Aqueles que te amam são os únicos capazes de te esperar, ainda que você demore para voltar...

Prof. Rodrigo Rudi
Graduado em Letras pela Universidade de Barra Mansa - RJ.
Pós graduando em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA - Vassouras/RJ.
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