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 Aula da saudade

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Luiza Helena, a lingüista
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MensagemAssunto: Aula da saudade   Qua Jun 11, 2008 11:37 pm

AULA DE SAUDADE

Luiza Helena Oliveira da Silva

Amar o perdido deixa confundido este coração.
Carlos Drummond de Andrade


Há alguns anos participo de “aulas da saudade” com acadêmicos do curso de Letras. Trata-se da última aula para os concluintes do curso, uma das ocasiões festivas que antecedem à cerimônia de colação de grau. Quase que invariavelmente, o encontro é marcado por lágrimas e manifestações de amizade e carinho. Se para a formatura é eleito um orador, que planeja sua fala em nome da turma, com a devida antecedência e a devida formalidade, na aula da saudade todos têm direito a voz e a emoção da despedida corrompe a possibilidade do afastamento e da isenção. Neste ano, não foi diferente.
Planejando as atividades que desenvolveria junto aos alunos, pus-me a pensar sobre os sentidos da palavra saudade. Entreguei a eles cópias do poema Memória, de Carlos Drummond de Andrade.
No poema, Drummond discute a questão da memória, que pressupõe inevitavelmente a possibilidade do esquecimento: Nada pode o olvido / contra o sem sentido/ apelo do não. Do que nos lembramos, afinal? Qual é o processo que implica selecionar rostos, acontecimentos, paisagens para levar conosco, deixando para trás outros rostos, outros acontecimentos, outras paisagens soterrados pra sempre nos escombros do passado, aquietado e adormecido?
Guardamos o que para nós é significativo, digno de memória e de saudade. Desejamos o que nos falta, nesse caso, as coisas findas: uma certa presença, um certo momento, uma certa história vivida, uma emoção que parece não mais poder ser pressentida. Por isso tocam-me os versos do poeta mineiro, apaziguando a dor que se antecipa à certeza da perda: As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão, / mas as coisas findas, / muito mais do que / lindas, /essas ficarão. A memória preserva o que não pode mais ser tangível, a não ser pelo exercício da saudade.
Só pode experimentar esse sentimento quem tem história, quem ousou ter vivido, quem soube amar e perder. A saudade, assim, converte a perda em presença, a finitude em permanência. Faz perdurar no coração o que é motivo de uma certa beleza. Como traduzi-la? Termino esse texto (aula sobre a saudade?), com dois poemas:

Da intraduzibilidade da saudade


Longings
Long
Longer
Longe

Luiza Brisa



Soneto à Saudade

Janete Santos

A saudade não é só essa coisa chata e penosa
de que todo mundo fala mal [mas tb gosta]
pois ensopa é nosso coração de vida
deixando a alma besuntada despida

da sequidão de uma vida sem sentido
fazendo-nos lembrar que o bem outrora tido
valeu a pena, mesmo sendo algo passageiro
tal qual do ser humano é a existência

Ó, Saudade, que me lamenta o bem distante
às vezes, ou muito mais, o bem perdido
faz um acordo hoje cá comigo

perverte a dor que trago em mim vazia
fazendo-me chorar, porém, de alegria
somente e grata pelo bem que tive.


Crônica publicada no Jornal O Norte, de Araguaína, em 2007.
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