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 Crônica: Flechadas no coração do povo

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Luiza Helena, a lingüista
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Data de inscrição : 10/06/2008
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MensagemAssunto: Crônica: Flechadas no coração do povo   Qua Jun 11, 2008 11:30 pm

FLECHADAS NO CORAÇÃO DO POVO

Luiza Helena Oliveira da Silva

Dia desses, o Tocantins surgiu na pauta do Programa do Jô, TV Globo. Entre as jornalistas convidadas para debater com o apresentador os encaminhamentos da política brasileira, estava Lílian Wite Fibe. Inevitavelmente a discussão envolveu o conturbado caso do senador Renan Calheiros (PMBD-AL) e, por conta da Comissão de Ética encarregada de cuidar da análise das denúncias feitas ao senador, chegamos ao representante tocantinense, Leomar Quintanilha (PMDB), também respondendo a processos anteriores.
Nesse momento, as atenções se voltam para nosso Estado. Wite Fibe questiona como Quintanilha pode estar à frente de uma federação de futebol: E tem futebol no Tocantins? Aquele lugarzinho? A jornalista lembra em seguida a triste relação que, no país, se estabelece entre a “paixão nacional” e os interesses de políticos brasileiros. O período da ditadura militar, como se sabe, confirma essa tese. Um pouco antes, Jô criticava: Como o povo insiste em eleger pessoas que são acusadas de corrupção? Referia-se ele, particularmente, ao senador do Tocantins.
Embora sendo fluminense, senti-me ofendida com os comentários do programa, lendo como preconceituosas algumas das falas. Em primeiro lugar, pelo uso do diminutivo ao referir-se a este Estado, no qual resido há três anos. Como mostram as gramáticas, o diminutivo não expressa apenas redução de tamanho. Pode significar afetividade, mas também desprezo. Vejam-se as diferenças entre as frases Você é uma gatinha e Aquela é uma mulherzinha. Na primeira, o diminutivo aponta para a apreciação, intensificando o charme de alguém; na última, o tom é evidentemente depreciativo. São os usos que emprestam os valores, os sentidos para os termos. No contexto da fala da jornalista, a expressão lugarzinho aponta para o sentido de insignificância no cenário nacional. Não se trata obviamente de extensão – porque aí não caberia o termo -, nem de afetividade. Trata-se muito possivelmente de desprezo que parte de uma dada concepção de progresso e desenvolvimento. Longe dos modelos do Sudeste, o Tocantins seria uma região a vir a ser, uma promessa longínqua, o que ainda não é, só um lugar. Zinho.
Outro aspecto que me incomoda diz respeito à eleição pelo povo de representantes de moral supostamente duvidosa para ocupar cargos públicos. Ressalto que, infelizmente, nesse caso, o problema não estaria reduzido aos eleitores tocantinenses. A forma melindrosa com que, principalmente, no primeiro momento das denúncias, foi conduzido o processo, trouxe à tona indícios do grau de comprometimento de senadores e deputados. Quem atiraria a primeira pedra?
Mas o que vejo como grave é atribuir ao povo a responsabilidade pelos usos e abusos do poder. O modo como se dá o processo eleitoral no país favorece que os que mais investem financeiramente, maiores chances possuam de serem eleitos. Não há propriamente um debate de idéias, mas disputa de estratégias de marketing de custos vultosos. Quantos trabalhadores de baixa renda vêem nas eleições a chance de garantir ainda que provisoriamente uma melhora na renda familiar? Emprestam sua força de trabalho a campanhas de candidatos cujas plataformas e compromissos lhes escapam.
O que me dói o coração é lembrar os rostos dos eleitores de Araguaína em outubro passado. Muitos vinham de longe, mesmo já idosos, depositar nas urnas suas esperanças. Duas vezes me ausentei da mesa receptora pra não chorar, comovida com a sinceridade das pessoas, com a honestidade que muitos nem imaginam existir.
Deixando de presidir a sessão do Congresso marcada para votar a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), Calheiros disse sentir-se como São Sebastião, alvo de flechadas. Pra nossa tristeza, as flechas parecem atingir o nosso peito, fazendo sangrar o coração do povo que luta e trabalha de fato, escrevendo com suor e lágrimas a verdadeira história de nosso país.

Crônica publicada no Jornal O Norte, de Araguaína, em 2007.[justify]
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